69% dos usuários do Quinto já sofreram ou presenciaram um ato de racismo e 58% não confiam na polícia, mas a maioria é contra protestos violentos e em época de pandemia

Quando parecia que 2020 seria pautado pela pandemia de coronavírus, movimentos pela vida das pessoas negras e contra o fascismo ganharam as manchetes, as redes sociais e as ruas – até então esvaziadas pelas medidas de distanciamento social. Quais motivos levaram à essa “convulsão social”? O estopim nos Estados Unidos foi a morte de George Floyd, um homem negro de 46 anos, assassinado por um policial branco durante imobilização em uma abordagem. No Brasil, geraram revolta as mortes do adolescente negro João Pedro, de 14 anos, baleado durante ação policial no Rio de Janeiro, e do menino Miguel Otávio, que caiu de um prédio enquanto estava sob os cuidados da patroa de sua mãe, uma empregada doméstica no Recife. Além disso, grupos também se mobilizaram contra o aumento de movimentos com posicionamentos considerados antidemocráticos. No entanto, esses casos não são inéditos, nem no Brasil e nem nos Estados Unidos. A hashtag #blacklivesmatter (em português, vidas negras importam), por exemplo, existe desde 2013 e tem relação com a morte do adolescente Trayvon Martin.

Quais foram, então, os fatores que levaram ao “ponto de ebulição”? Uma forma de buscarmos pistas para analisar a complexidade das engrenagens que movem a sociedade é conhecermos a opinião coletiva. E se tem uma coisa em que somos especialistas no Quinto é em instigar a reflexão. Racismo, protestos, polícia, violência, ocupar as ruas em plena pandemia, são alguns dos temas de perguntas que nossos usuários responderam no app e cujos resultados você pode conferir a seguir.

As ideias nas ruas

Imagem mostra protesto contra o racismo, pessoas estão com os punhos em riste

Desde a morte de Floyd diversas cidades dos Estados Unidos, e inclusive de outros países, registraram protestos contra o racismo e a violência policial. No Brasil, opositores do governo também têm se reunido em protestos variados contra o fascismo em São Paulo, além de atos em memória do menino Miguel no Recife. Ocupar as ruas com um propósito é uma ideia apoiada pela maioria dos usuários do Quinto, sendo que 63% dizem que participam ou participariam de protestos e manifestações. É interessante notar, no entanto, que a adesão cai bruscamente quando a motivação é política. Apenas 31% disseram que participariam de manifestações políticas.

Quando o assunto é a violência em protestos e a destruição de patrimônio, o apoio diminui ainda mais. 89% dos usuários do app não participa ou participaria de protestos violentos e 88% não concordam com a destruição de patrimônios em protestos políticos.Tanto nas manifestações de São Paulo, quanto fora do país, foram registrados conflitos com as forças de segurança e patrimônios danificados. Para alguns, a violência tira a credibilidade dos movimentos, enquanto outros defendem que ela é uma consequência da revolta dos oprimidos e da repressão policial.

É o momento de protestar?

Outro ponto polêmico dos protestos, é a sua realização em plena pandemia, quando a Organização Mundial de Saúde (OMS) recomenda que sejam evitadas aglomerações. Para os defensores das mobilizações, as questões reivindicadas são tão urgentes quanto um vírus e não podem esperar. Os contrários, no entanto, veem com preocupação a possibilidade das manifestações acelerarem a transmissão da Covid-19. Entre os usuários do Quinto, 66% não concordam com protestos e manifestações na rua antes do fim da pandemia.

Agregar sem aglomerar: o poder das hashtags

 

Com as possibilidades de se reunir limitadas pela pandemia, a internet ganhou mais uma vez o papel de mobilizar por uma causa. Desde a morte de Floyd, a campanha #blacklivesmatter, embora existente desde 2013, ganhou um apoio inédito. Artistas, políticos, pessoas comuns e até empresas passaram a se manifestar nas redes sociais, inclusive reconhecendo a existência de um sistema de racismo estrutural na sociedade e da violência policial. Esse tipo de mobilização, porém, costuma ser acusada de “ativismo de sofá” e gera descrença de setores que acreditam que a mudança real é conquistada apenas nas ruas. Contudo, outros apontam que as redes sociais são uma forma de democratização da opinião e que possuem poder de transformação. Os usuários do Quinto parecem crer nas possibilidades da web, sendo que para 67% protestos nas redes sociais são eficientes.

#Vidasnegrasimportam

 

Manifestante segura placa com os dizeres Vidas Negras Importam

 

O racismo, embora nem sempre no centro das atenções midiáticas, não passa despercebido no cotidiano, sendo que 69% dos usuários do app relatam que já sofreram ou presenciaram um ato de racismo. Para ativistas do Movimento Negro, o racismo não está apenas nas injúrias e ataques diretos, mas também em uma sociedade estruturada de forma a privilegiar determinados grupos. Isso afetaria o acesso igualitário à educação, saúde e segurança, entre outros direitos básicos.

A forma como os negros e seus problemas são retratados pelos meios de comunicação seria outro problema apontado pelos ativistas. Uma opinião que parece ressoar entre os usuários do Quinto, uma vez que 71% acham que a mídia é racista. Apesar de tudo, os usuários do app parecem otimistas com as perspectivas do futuro. Quando perguntados se “a desigualdade entre negros e brancos no mercado de trabalho vai diminuir”, 73% disseram que sim. Além disso, há a percepção de que todos devem lutar pelo fim do preconceito, sendo que 89% dos usuários do app acham que pessoas brancas devem se posicionar sobre o racismo.

 

A polêmica da polícia

Um dos pontos mais polêmicos dos protestos nos Estados Unidos têm sido a reivindicação pela diminuição dos investimentos nas forças policiais. Para os manifestantes, esses recursos seriam melhor empregados em moradia e educação, como uma forma permanente de melhorar a sociedade. No Brasil, onde a violência urbana é uma das maiores preocupações da população, a atuação da polícia divide opiniões, especialmente em regiões de vulnerabilidade social. Entre os usuários do Quinto, 65% não concordam com a maneira como a polícia atua em favelas e periferias e 58% não confia na polícia.

As discussões sobre reformar os sistemas de segurança são complexas e há inclusive quem defenda a extinção da polícia – no Brasil esse argumento é utilizado especialmente sobre o braço militar da corporação. Prever o legado final do #blacklivesmatter é prematuro, mas medidas concretas já começam a aparecer. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou um decreto de reforma do sistema policial. Entre os pontos do documento, está que para receber financiamento as polícias precisarão proibir manobras de imobilização que utilizem sufocamento, a não ser que as vidas dos agentes de segurança estejam em risco. Embora as medidas sejam consideradas ainda insuficientes por ativistas, são indicativos de que as autoridades sentiram a necessidade de dar uma resposta à sociedade.

Defender a liberdade é preciso?

Os protestos que tomaram conta da avenida Paulista, na capital de São Paulo, em maio e junho reivindicavam a defesa da democracia. Para os manifestantes, há grupos, políticos e autoridades que defendem valores antidemocráticos e que ameaçam a liberdade. No entanto, há quem defenda que falas contra determinados poderes, como o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal (STF), são legítimas reclamações contra uma suposta má conduta dos integrantes dessas instituições. Entre os usuários do Quinto, 62% acreditam que a democracia brasileira corre risco.

Debate e progresso

O ensaísta francês Josef Joubert dizia que “o objetivo de um debate ou discussão não deveria ser a vitória, mas o progresso”. A frase é usada para enfatizar a importância de levar as discussões para a sociedade, compartilhando assim os problemas e levando às soluções. Quer participar de debates relevantes? Então entre no Quinto e participe da construção da opinião coletiva.

 

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Homem negro de ajoelha diante de policial em protesto contra racismo