Maioria dos usuários do app entende a festa como manifestação cultural, mas na hora da folia não se previne e deixa de lado o preservativo

O Carnaval já começou na maioria das capitais brasileiras onde a folia é tradição! O cenário pelo Brasil é de ruas lotadas, muita música e alegria. Entretanto, o Carnaval não é apenas diversão, também é uma importante oportunidade para a discussão de questões sociais que estão intrínsecas à natureza da festa, como o debate cultural, de saúde, do machismo, do assédio e outros. Pensando nisso, o Blog do Quinto dessa semana chamou alguns usuários da app para comentarem os resultados de perguntas que levantam essas questões: Bruna Muraro, 24 anos;, Caroline Queiróz, 22 anos, e Matheus Dantas, 27 anos.

Carnaval e saúde

Para a maioria dos usuários do Quinto, a prevenção contra Doenças Sexualmente Transmissíveis (DSTs) durante a folia infelizmente ainda não é uma preocupação: 52% das pessoas que responderam a respeito disseram que não levam preservativo para as festas de Carnaval. Para a usuária Bruna Muraro, o motivo pode ser o fato de muitos jovens – maioria entre os votantes – não fazerem uso da camisinha por acreditarem na premissa de “comigo não vai acontecer”.

Na opinião de Caroline Queiróz, a banalização das DSTs é fruto da desinformação e do pensamento recorrente de que camisinha é necessária somente para evitar gravidez. “Isso é reflexo de um cenário que coloca o preservativo apenas como uma ferramenta pra inibir uma gravidez indesejada, quando nós devemos estar sempre preocupados com a questão do HIV e outras doenças. As doenças estão aí e recentemente muitos dados mostram que casos de sífilis, gonorreia, têm aumentado entre os jovens”.

Já Matheus Dantas pensa diferente: “a geração de jovens atual tem muita informação, todos temos na verdade, mas o jovem está diretamente inserido no contexto e nas ferramentas que disseminam as informações. As boas e as ruins, infelizmente. Então, ele acaba negando esse conhecimento na prepotência e ilusão de afirmar que sabe sobre tudo, e que é praticamente invencível. Só que ele se depara com a vida real apenas quando é abatido por algo que achava que nunca iria viver/contrair/encontrar. É um paradoxo terrível, e que vale para outros diversos assuntos, mas este é um dos mais graves”, disse.

Carnaval é Cultura?

homem dançando no desfile de Carnaval

O Carnaval é a maior festa do Brasil e para a maioria dos usuários do Quinto representa sua cultura

Para a maioria dos usuários do Quinto sim! 71% das pessoas que votaram na pergunta do app disseram acreditar que o Carnaval é sim uma manifestação cultural. Embora os usuários que dizem gostar da folia sejam minoria no aplicativo (41%), a importância da festa para a valorização da cultura nacional e do turismo é percebida de forma positiva.

Para Matheus Dantas também é assim. Segundo ele, o Carnaval é a cara do Brasil! “Cultura entra como manifestação do povo e acaba se tornando característica do mesmo. Não é só sobre produzir a cultura no sentido de livros e arte, é fazer parte dela, consumi-la, reproduzi-la e vivenciá-la. O Carnaval é a cara do povo brasileiro. Independente de como é interpretada ou qual adjetivo receba, a festa é sobre alegria e felicidade e isso explica demais o Brasil”, ressaltou ele.

Bruna Muraro e Caroline Queiróz concordam. “O Carnaval tem a essência da cultura brasileira, cada região se expressa de uma forma e expressa sua marca, das pessoas, a mensagem que elas querem passar. Festa nacional é cultura”, disse Bruna, enquanto Caroline completou: “Carnaval é marcado pela cultura, justamente porque movimenta e tem várias tradições que são emblemas culturais do país. Também reúne a galera pra celebrar o que há de melhor, a felicidade, a alegria, a diversidade e sempre que há esses três elementos a cultura é associada”.

Apropriação cultural no Carnaval

mulher dançando e celebrando o Carnaval

A festa é marcada pelo uso de fantasias, mas debate acerca da apropriação cultural se faz cada vez mais presente

Expressar-se por meio do uso de fantasias é a grande diversão para muitos durante o Carnaval. Ainda é comum, porém, vermos alegorias de “índio”, “baiano”, entre outras, consideradas como apropriação cultural, nos bailes e blocos de rua. Apropriação cultural, resumidamente, ocorre quando uma cultura adota elementos de outra. O lado negativo é apontado quando se explora essa cultura de maneira artificial, sem quem se apropria dela vivênciá-la, nem conhecer os problemas de quem a vive. Para 69% dos usuários do Quinto, no entanto, a apropriação cultural não é vista de forma negativa.

Bruna Muraro conta que, apesar de não saber o que é sentir na pele esse tipo de preconceito, já fez tranças raiz no cabelo e que algumas amigas consideram ok enquanto outras não gostaram. “Entendo os dois pontos e acho válido sempre poder absorver cada um deles. De modo geral, acredito que dá para se fantasiar de muitas formas sem invadir o espaço de ninguém”, explica. O que a incomoda, em geral, é a fantasia de “nega maluca”. “Não vejo como positivo, não é uma homenagem, e mostra mais como a sociedade está acostumada a tratar a mulher negra”, diz.

Muito a se explorar

Caroline também acha que é possível se fantasiar usando outros temas, que não passem por questões raciais e de etnias. “Não acho de bom gosto, justamente porque tem uma infinidade de espaços para serem explorados que não passam por esses temas. Não faz sentido as pessoas ainda optarem por esse tipo de fantasia nos dias de hoje”, ressaltou ela.

Já Matheus acha que o tema diz muito sobre nosso momento como sociedade, em especial nas redes sociais, que aguardam o deslize de alguém para criar o famoso “cancelamento” ou “linchamento virtual”. “Não tem como impedir uma garota branca de usar um turbante no seu dia a dia, ela vai usar se quiser, mesmo se não fizer questão de saber o contexto de sua utilização. O trabalho então é de conscientização. Se vai se apropriar, que ao menos seja com entendimento e conhecimento. Tem lutas do outro que a gente nunca vai lutar, mas a gente pode ser suporte. Vai da sua intenção, mas, etnia nunca vai ser fantasia!”.

Não é Não!

mulher com expressão não é não pintada no rosto

Campanha começou há alguns anos e visa deixar claro que depois do “não”, qualquer tipo de insistência é assédio

O assédio é outro tema recorrente e preocupante na época do Carnaval, quando muitas vezes a liberdade, a alegria e as fantasias são, ainda nos dias de hoje, percebidas de forma errada. Campanhas como a “Não é Não” e outras tentam conscientizar sobre a importância de se respeitar os limites do outro durante a festa. 73% do público do Quinto diz que nunca foi vítima de assédio durante o Carnaval, entretanto esse é um debate que não pode ser ignorado.

“A liberdade dos corpos e a importância do consentimento, diante de qualquer atitude é o mínimo para se sair de casa, e até para viver dentro de uma. Depois do não, tudo é assédio. Em um momento como um Carnaval, onde as pessoas querem viver suas fantasias, é importante que seja reforçado todo esse discurso, e que ele abra oportunidade para que em outras épocas do ano se faça presente também”, comenta Matheus.

Caroline considera que campanhas contra o assédio também servem de alerta para que, principalmente as mulheres, entendam quando determinados comportamentos passam a ser inapropriados. “Muita gente nem imagina que um puxão é assédio, um beijo é assédio e acaba, por meio dessas campanhas, tendo um pouco mais de discernimento sobre esses limites”, diz. Bruna também valoriza a ação das campanhas e acredita que são assertivas. “Considero toda ação efetiva de algum modo. Igual campanha contra Aids, tem números que provam que quando diminuem as propagandas os casos aumentam. Então tem que reforçar muito essa questão, que por mais que infelizmente sabemos que muita coisa continua acontecendo, as campanhas fazem muita diferença”, reforça.

Hipersexualização da mulher

Em grandes eventos, 93% dos usuários do Quinto acham que mulheres correm mais risco de sofrerem assédio. Especificamente durante o Carnaval, a hipersexualização feminina pode ser um dos fatores para que isso ocorra de forma mais evidente. Bruna diz que sua opinião sobre o tema é bastante dividida. “Eu, Bruna, sou a favor de mulher mostrar o corpo quanto ela quiser e ter o direito disso. Não ser julgada por mostrar o corpo. O que me incomoda é o link feito entre carnaval lembrar mulher pelada como safadeza, não acho que as mulheres têm que se vestir mais, acho que a luta tem que ser contra essas analogias machistas”.

Estigmas que permanecem, outros nem tanto

Para Matheus, essa é uma contradição do Carnaval que, infelizmente, ainda resiste. Segundo ele, sendo uma festa de liberdade e ausência de pudor, tudo é confundido com libertinagem, e a mulher que se sente confortável na sua própria pele, acaba sofrendo as consequências. “O papo de que, se está com tal roupa está com algum intuito diferente do de se divertir como quiser, é mais do que ultrapassado. Infelizmente, a mulher negra tem sua imagem ainda mais estigmatizada nesse período. Ao mesmo tempo, eu acho que os limites e as concepções que fortalecemos justamente com as campanhas pontuais, têm também colaborado para uma nova interpretação de tudo. Não tem como viver um novo tempo, com a cabeça no passado”, destaca.

Caroline reforça: “Isso ocorre durante o ano todo, mas no Carnaval é mais latente pela questão das fantasias. Atualmente, no entanto, eu tenho visto que há um reposicionamento de marcas num outro sentido. A Globo, por exemplo, não usa mais a personagem Globeleza só com pintura corporal. Mas é claro que essa simples ação não faz acabar a hipersexualização da mulher e exposição dela como produto. É importante sempre deixar claro que a forma como uma mulher se veste, por exemplo, é uma questão de escolha dela e não da satisfação do prazer masculino”, finaliza ela.

Outros temas

No Quinto você encontra esses e outros temas relacionados ao Carnaval para opinar e debater. Entre as várias perguntas, você também pode responder se cuida do seu lixo durante a festa, por exemplo (84% dizem que sim), por exemplo. Nos próximos dias, novas perguntas como “Você vai / iria com seu pet ao Carnaval?” e “Você já foi roubado ou furtado no Carnaval?” também estarão disponíveis. Baixe o app e participe!

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grupo de jovens tirando selfie